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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

FILHA DO PRECONCEITO

Sou nada ou coisa alguma.


Sou ninguém.

Caro leitor, devo admoestá-lo a cerca deste texto. Trata-se de um relato rasgado sobre anos de preconceito vividos em todas as suas formas. Caso este tema não lhe toque, nem perca seu tempo, parta para algo mais superficial que adianto-lhe, não encontrarás neste blog. Aqui é ferida aberta sempre, sangue que escorre, coração pulsante entre alegrias e decepções.
Estive observando a vida sentada na minha pedra amada(simbolicamente), e reparei que negros e homossexuais sempre viveram preconceito e racismo escancarado, em CAIXA ALTA, negrito, itálico e sublinhadoPorém os obesos(parte que me compete), sofrem um preconceito na maioria das vezes, velado. Me pergunto qual modalidade de preconceito dói mais, a velada ou a escancarada? 
As duas. Seria esta a resposta mais adequada. Mas parece que ao ser exposta, sua dor é de certa forma amparada, parece que você sofre em bando, é como se dividisse sua dor, já ao ser torturado veladamente, a solidão e o desamparo te acompanham no tripalium. 
Se quiser se vestir minimamente bem, sem sentir-se envolto em cortinas, o gordo tem que procurar uma loja especializada, sim, ele não pode misturar-se ao povo esguio, seu lugar é na senzala dos obesos. Se estiver em uma festa ou almoço adivinhe sobre quem será a piada acerca da pouca quantidade de comida? 
Aliás piadas é algo diário, independente da situação. O gordo é invariavelmente referência negativa: "Nossa! Aquele cara gato vai sair com aquela gorda??!!!" 
Nesta semana fui comprar um novo uniforme do escritório onde trabalho junto com mais duas colaboradoras. Trata-se de um local onde o uniforme é feito sob encomenda, logo, você pode encomendar qualquer numeração, afinal será confeccionado especialmente para você. 
A moça me disse(com cara de nojo), que não tinha a minha numeração e pronto, fim da história. Eu ia sair cabisbaixa como sempre, mas aí pensei: É muito desaforo! E então falei para ela: Veja como o preconceito é velado neste país não é? Estou em uma loja onde fabrica-se roupas e simplesmente não há roupa para mim. Se em um lugar que vende roupas sob encomenda não existe a possibilidade de ser confeccionada uma para mim, onde eu devo ir? Onde há roupas que vão até a numeração 48? 
A moça então, talvez temendo algum processo ou algo que o valha, decidiu me "ajudar" e disse que se eu quisesse ela poderia encomendar. Se eu quisesse? Mas não era esse o meu propósito ali? Me adiantou em tom de sarcasmo que iria demorar muito e que seria bem mais caro, usou todos os argumentos possíveis para me desestimular a comprar, o que eu não fiz. 
Nasci e cresci em um lar evangélico em uma época em que ser crente era como ter lepra, ou ser negro ou homossexual. Você era naturalmente excluído. Então, eu era uma criança crente, filha de um negro que sentia e sente até hoje vergonha de sua cor e é racista, sim há negros racistas, sou filha de um, era magrela e tinha o cabelo crespo. Este conjunto era a combinação perfeita para ser excluída e bem mal tratada, oque ocorreu em toda minha infância. 
Aí cresci e descobri a homossexualidade do meu irmão caçula, então passei a sofrer mais esse preconceito porque o que faziam contra ele me atingia diretamente.
Meu irmão super inteligente, divertido, culto, antenado, jovem, faleceu aos 34 anos vítima da AIDS porque temeu não sobreviver ao preconceito. Ele necessitava sentir-se amado, estar rodeado de gente e sabia que se divulgasse sua contaminação seria colocado de lado, então morreu calado, nem mesmo a família sabia de sua infectação e sabem por quê? 
Porque ele ouvia em casa coisas como: Olha eu te amo, te aceito em casa quando quiser, mas seus amigos(homossexuais), não. Ou, olha "apesar de tudo" eu te amo! Oi???????!!!!!
O preconceito levou meu irmão mas já tinha me levado muito antes. Ele nos torna defuntos vivos. Nos apaga, nos oprime, nos cala, humilha, exclui, mata. 
Hoje estou na fila da cirurgia bariátrica para quem sabe poder entrar em uma loja de "gente" e comprar uma roupa de "gente". Quem me conhece sabe que apesar deste blog ser praticamente uma leitura da minha alma pois trata-se de meus pensamentos e reflexões sobre a vida, não gosto de me expor, deixo isso para a vida que já o faz com perfeição. 
Então se estou aqui expondo não só a mim mas a minha família e ao meu irmão que escolheu levar seu segredo para o túmulo e eu o remexi para trazê-lo à tona, é por uma boa razão; a vida.
Preciso gritar para que ouçam e lutem por suas vidas, por seus entes queridos. Pais, observem seus filhos. Pais evangélicos, não percam seus filhos para a AIDS, leiam os sinais, instruam-se, pesquisem sobre os sintomas, após o falecimento de meu irmão nos demos conta de que todos os sinais estavam ali na nossa frente, mas não sabíamos ler.
Seu filho é homossexual e você é crente? Pergunte-se: É melhor "perdê-lo" para o mundo ou para a AIDS? 
Ajude-o, dê apoio, amor, compreensão. Não barganhe amor, apenas sinta, doe, certamente é isso que Jesus faria.


Por Solange Lima In Memoriam de Hamilton Lima da Silva 
* 19/03/1979
+ 09/06/2013







P.S.: Por favor não sinta pena, não é esse o objetivo aqui, muito pelo contrário. A pena é mais uma vertente da segregação. 

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