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SEU MORTO

Cada um com o seu

Nunca se falou tanto sobre morte como nos últimos 2 anos. Esse cenário é revelador, nos mostra muito do ser humano e sua individualidade coletiva. 
Deseja-se militar por uma igualdade de valorização da vida, no entanto, os mortos anônimos são velados por seus entes queridos que choram a perda e sofrem sua dor isoladamente. Já os famosos, os que merecem atenção, são velados em rede nacional, recebem aplausos, passeatas e abaixo-assinado. A verdade é que a dor é solitária, sempre foi e sempre será, mas os anônimos são solitários e abandonados.
O luto é completamente exclusivo, inesperado, individual e sombrio. Tem tempo, cheiro, cor, nuances e muita escuridão. Cada pessoa reage de forma única à sua perda. Há quem vele seu morto até que sua própria morte chegue. Há quem se negue a viver essa separação e siga a vida como se nada a tivesse chacoalhado. 
Há mortes que enterram histórias, há outras que enterram traumas, outras, desilusões, sonhos, planos e outras tantas que deixam cadáveres sobrevivendo à ela.
Hoje, dia 09 de junho de 2021, faz 8 anos que enterrei o meu morto. O mais vivo, fugaz, alegre, divertido e generoso ser que a morte levou de mim. Dias, meses, anos, décadas... o que é o tempo? Era tanta vida que o túmulo não foi capaz de conter. Ele está aqui, tão, tão vivo em mim! 
Não há sofrimento, não há dor, não mais. Mas sobra saudade, muita, muita e muita saudade. Aquele desejo quase infantil de tê-lo por uns minutos, só uns... Na individualidade da dor cada um lida com o seu morto, à sua maneira, no seu tempo, com sua intensidade. 
Celebre a vida! 
Na sua breviedade amanhã pode ser você a gerar solidão no coração de alguém. 
Um virús, um carro, uma moto, uma parada, uma política equivocada, um descaso, um ar interrompido.
Você só sabe que vai dormir, mas não sabe se vai acordar. Então viva, celebre, se proteja e proteja os seus. E no apagar das luzes lembre-se que cada um vela o seu morto em seu próprio coração, não espere coletividade, não chore o desamparo, é involuntário.


In memória de Hamilton Lima da Silva - meu irmão amado.
*19.03.1979
+09.06.2013



Por Solange Lima e-mail: solangelimaproducoes@hotmail.com WhatsApp (13) 98129 3515

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